Quando escrevemos um texto para os nossos “blogs” penso que a maioria de nós, não faz de maneira biográfica, apesar de compreender, que muito do que escrevemos, faz parte das nossas preocupações de vida, pois, de nada adianta nos preocuparmos com o meio ambiente, por exemplo, se não nos preocuparmos primeiro com a totalidade do ambiente em que vivemos.
Senão, vejamos: você está, numa praça, crianças brincam, idosos jogam dominó, babás e mães conversam, o vendedor de pipoca estoura o milho na panela e mesmo assim, estando rodeado de tanta gente, você sente que está só.
Ou, você está, dentro de um ônibus, no Metrô, numa ante-sala de um consultório médico ou dentário, ali existem outras pessoas, que estão no mesmo lugar contigo, mas, nem por isso vocês estão juntas.
Aliás, estar juntos, hoje em dia, até alguns casais que convivem no mesmo lar, não estão na “mesma página”. As fotos do casal estão expostas por toda a casa em porta-retratos, eles dormem na mesma cama, mas, ambos muitas vezes, sentem um vazio sem fim.
Quando uma pessoa muito rica morre, você já viu no cortejo fúnebre, um carro-forte seguindo o “rabecão funerário?” Isso ninguém viu e, nunca irá ver. Viver pobre e solitário, morrendo rico e cercado de pessoas em um velório (ou cerimônia crematória), é pura estupidez. Nos tempos modernos, não existe mais espaço para sarcófagos, pirâmides e faraós.
De um modo geral, nossa relação com a solidão é tamanha, que chegamos ao ponto de recebermos mais ligações e mensagens de texto (via celular), das operadoras de telemarketing, que de parentes e amigos.
Quem de nós nunca se viu vivendo dentro de um filme do “Flash Gordon” (ícone perene da ficção científica), que tão bem nos representa, no Mundo contemporâneo, em que existe um tal de “Universo Virtual”, que sabe-se lá onde fica? Talvez seja no “Planeta Mongo”¹ (uma espécie de universo paralelo). Ou ainda, quem de nós, por vezes, já sentiu ser, um daqueles bonequinhos movidos por corda, que saem disparados pela casa, e quando topam com uma parede, ficam andando sem sair do lugar?
O que aprendemos de concreto, nesta vida, é que uma pessoa só pode ser ignorada por dois motivos: primeiro por ser alguém insuportável; segundo por ser alguém que é invejado. Uma pessoa insuportável, por incrível que pareça, consegue ser aceita com mais facilidade nos grupos sociais, do que a invejada. Sim, pois, quem é insuportável se faz presente nas “rodinhas sociais”, enquanto quem tem a sombra da inveja nas suas costas, sequer é convidado até mesmo para os eventos mais populares, por medo de que ofusque os demais convidados.
Dos heróis das histórias em quadrinhos, aquele que mais se assemelha com a verdade da vida do maior número de pessoas do Mundo, é o “Homem Invisível”, não por suas habilidades de super-herói, mas sim, por sua invisibilidade, por sua habilidade tácita de ser antissocial, devido ao seu talento de se fazer ausente em locais públicos, mesmo estando presente. E hoje com o advento dos “Smartphones”, ser invisível mesmo estando conectado ao Mundo (via Web), é algo que está ao alcance dos dedos, sempre acelerados nas telas de “touch screen” dos nossos celulares, ou seja, muitos vivem no “piloto automático”, de maneira anestesiada, como se subsistissem, agindo como se fossem “zumbis virtuais” e, agora também “invisíveis”, numa espécie de quarentena opcional, onde não sentem solidão em sua condição de invisibilidade, mesmo que não façam parte da “Liga da Justiça”.
No Mundo contemporâneo, não é difícil percebermos (salvo raríssimas exceções), muitas pessoas agindo da mesma maneira, quando se sentem violadas em seus direitos e, assim, como o herói, se tornam invisíveis diante de situações inconvenientes, que a sociedade denomina, “Zona de Conforto”.
Sendo “invisíveis”, estamos cada dia mais seletivos em nossas relações pessoais, mesmo estando vivendo em grupos sociais, como qualquer pessoa “sociável e visível ao Mundo”. Ou seja, já não nos vestimos mais em trajes de gala para grandes festas e eventos, preferimos o conforto dos moletons surrados das nossas “quarentenas ocipiciais” do dia a dia. Somos invisíveis, cobertos com o “manto da invisibilidade” (uma das três “Relíquias da Morte”), do universo do bruxo “Harry Potter” e assim, não ficamos visíveis para os outros, uma vez que este modo defensivo, nos torna solitários, às vezes por opção, às vezes por uma situação de vida imposta pelas demais pessoas que nos cercam, as mesmas pessoas que te excluem (que te jogam para escanteio), por egoísmo e maldade gratuita, assim, como se a amizade, fidelidade e respeito, fossem sentimentos desnecessários em nossos dias (até o Natal chegar, pois, aí todos são receptivos e praticam atos de empatia).
Deste modo, outro herói entra em cena (ou no mar de dúvidas e isolamento), pois, agora, igual ao “Príncipe Namor - Sub-Mariner”, aqui em terra firme, somos só mais um peixe fora d’água, igual a tantos outros “peixes”, que estão perdidos neste mar de isolamento que o Mundo contemporâneo indica para nós, com insegurança social, falta de qualidade de vida, que faz com que as pessoas vivam cada dia mais sem opções de lazer (que no latim é: “licere”), ou seja, “ser lícito”, “ser permitido”. Mas, sendo “invisíveis”, não nos permitimos a quase nada, além de uma xícara de café (ou chá), uma “maratona de séries na TV por assinatura” e cama, pois, existem seis dias pretos no calendário (por semana) e temos de trabalhar muito, para ganhar “o pão nosso de cada dia”, neste Mundo literalmente desconstruído e descolorido em “50 tons de cinza”, onde confundimos à busca de ter sossego, de ter quietude, de possuir ausência de problemas e de preocupações, com solidão.
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[NOTAS FINAIS ®DOUG BLOG]
¹ “Flash Gordon”, é o herói de aventura e ficção científica, lançado em (1934), tendo suas histórias muitas vezes passadas no “Planeta Mongo” - (“Flash Gordon & the Warriors of Mongo”). Foi criado pelo desenhista americano: “Alex Raymond” (2 de outubro de 1909 - 6 de setembro de 1956), a princípio para tiras de jornal e depois, para televisão e cinema, sempre com muito sucesso.