Ainda estamos cumprindo dias de quarentena, embora alguns menos ajuizados (cansados da solidão), resolveram “fazer amizade” com o vírus e tentar a sorte.
Da varanda do meu apartamento, todas às noites, avisto pelas janelas, alguns vizinhos assistindo TV, outros fumando seus cigarros (na madrugada que se anuncia), alguns acenam suas mãos, esperando um aceno de volta... são sintomas do “insulamento pandêmico”.
É até normal que nesta fase de desterro social (principalmente os nossos idosos), sintam-se encantoados, pois, a maioria dos “nossos velhinhos”, nem de informática são familiarizados.
Quem nunca se sentiu só, antes mesmo da pandemia? Muitos, mesmo estando cercados por Maracanãs repletos de pessoas ao redor, já tinham a solidão batendo ponto em suas vidas.
Estar só, não significa transformar tudo em uma novela mexicana e sim, saber observar que a solidão não faz vítimas fatais, o que faz vítimas fatais atualmente, é o vírus, mas, este é um caso da ordem de saúde médica-hospitalar e não de dramaturgia ou literatura.
A solidão machuca, deixa suas escoriações, mesmo quando decidimos ficar sozinhos (por vontade própria, na solitude), pois, nenhuma solidão é boa companhia, nem a social e muito menos a virtual, esta, imposta pelos modernos Smartphones Touch Screen, conectados nas Redes Sociais, que nos dão a falsa impressão de mantermos milhares de amigos. A Web nos permite até estar “nas nuvens”, sem a necessidade de um Céu sobre nossas cabeças.
Um estudo da ONU - Organização das Nações Unidas, revelou que a população global atual (2020), mesmo com tantas baixas pela COVID-19, é de: 8 bilhões de habitantes no Mundo. Então, como é possível crer que ainda exista alguém sentindo solidão, neste nosso Mundo tão empachado de gente? Mas, o pior, é que mesmo com tanta gente, existem pessoas à beça se sentindo só por aí.
A solidão acontece em abundância, pois, somos parte de uma engrenagem hipócrita, que vive de aparências sociais. Algumas pessoas incultas, preferem estar na companhia de gente ainda mais inculta que elas (mesmo que seja de modo virtual), para que assim, todos possam coexistir, sem ganhar nada com isso, porque, elas vivem fazendo de conta, nesta verdadeira dança das cadeiras sem fim.
Já abordei vários temas aqui no ®DOUG BLOG, entre eles: timidez. E hoje, mais uma vez eu afirmo, que nem as pessoas tímidas, gostam só da companhia delas mesmas, pois, como bem disse o poeta jacobita inglês, John Mayra Donne (22 de janeiro de 1572 - 31 de março de 1631): “Nenhum homem é uma ilha isolada!”
Baseado nesta frase, creio que a solidão só serve, para pessoas que querem se esconder de si mesmas, fazendo acrobacias para se manter longe das relações, que na cabeça delas, desafiariam até a lei da gravidade.
A solidão com o tempo só traz lágrimas e depressão (esta sim perigosa, pois, afeta a saúde da mente e do corpo), tornando a sensação de tomar conta da própria vida, em fracasso e desinteresse.
Momentos de introspecção são necessários em nossas vidas. Mas, introspecção e sermos seres solitários, são duas coisas distintas, pois, mesmo quando acreditamos estar muito bem acompanhados, inevitavelmente, um dia, parentes e amigos nos desapontam de alguma maneira e aí, começa aquele teatro, onde interagimos muitas vezes por educação (mas, isso cansa), até o dia, que nos excluímos (ou somos excluídos), até dos grupos de família do WhatsApp, por exemplo.
Imagine a seguinte cena: você entra em um restaurante, se senta, pede o cardápio, janta; pede uma sobremesa, come; pede um cafezinho, toma; paga a conta e vai embora. Todos ao seu redor pensam: “coitadinho, que pessoa solitária, jantando sozinho(a)”.
Mas, estar só, pode significar tantas coisas. Você pode estar saindo de uma relação, pode estar de luto, pode estar trabalhando provisoriamente em uma cidade (que não é a de sua residência) e, em todos estes casos, você precisa comer, mesmo que seja de maneira solitária e, em nenhum destes casos a solitude é digna de pena.
Ou seja, não somos o quê pensam de nós, já basta este Mundo louco e pandêmico em que vivemos, onde quase nada de correto conseguimos observar ao nosso redor no momento. Tecer um elogio parece ser algo sofrido de acontecer, mas, uma crítica, está sempre afiada, fácil de sair da boca das pessoas. Mas, fofocas e maledicências hoje (como quase tudo no Mundo), são realizadas no modo digital, pois, muitos estão entorpecidos pelo vício virtual, muitos por vontade própria, outros tantos adotados pela quarentena.
Tem dias que a companhia mais fascinante que conheço, sou eu mesmo. Gosto de passar umas horas exercitando o meu bate-papo pessoal. Vocês que são pais/mães, observem os seus filhos, pois, crianças são especialistas nos bate-papos interiores (e não é à toa, que muitas vezes, sinto saudade daquelas boas épocas de menino, que vivi).
Clarice Lispector (10 de dezembro de 1920 - 9 de dezembro de 1977), disse: “... que minha solidão me sirva de companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar...” - o grande erro do solitário é este, não conseguir enfrentar a si mesmo (e ao seu degredo), de peito aberto.
Eu gosto dos encontros casuais, do que é súbito. Aprecio poder viajar pelo Mundo, andar por aí com a liberdade, de saborear o vento que bate em meu rosto e em meus cabelos prematuramente grisalhos. Gosto da companhia das boas músicas e dos muitos escritores (sempre meus cúmplices). Aí, neste meu bate-papo interior, eu começo a relembrar tudo que já vivi, das tantas pessoas que já estiveram ao meu lado e, sinto falta de muita gente... “Pessoas” que li e não conheci (mas, que adoraria ter conhecido), gente que amei incondicionalmente e se foi... Esposa, avó, mãe, pai e alguns amigos. Mas, de contrapartida, lembro de gente, que eu prefiro correr delas, igual ao “Forrest” correu no filme: (“Forrest Gump – O Contador de Histórias” (1994), pois, estas, são tão nocivas quanto ao Novo Coronavírus.
A solidão mesmo sendo uma expressão múltipla, ela é só um momento infeliz em nossas vidas. Assim sendo, estas frases do filósofo francês, Paul Valéry (30 de outubro de 1871 - 20 de julho de 1945), se fazem pertinentes: “Um homem só está em má companhia!” e “Há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade!”
Ou seja: tenham calma meus amigos e amigas do ®DOUG BLOG, mantenham o equilíbrio (mesmo que introspectivamente), nestes dias de tamanhas incertezas (por mais difícil que isso possa parecer no momento), porque, um dia a solidão passará, pois, na vida, tudo é mesmo passageiro, mutável e perecível. E assim, um aceno de mão (vindo de um vizinho, pela janela e/ou sacada), vizinho este que você nem conhece... ou um sorriso seguido de uma palavra positiva, podem salvar a solidão de ambos, deste “exílio de ensimesmamento” de todos nós.
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“Solidão Que Nada” (1987)
♫Cada aeroporto
É um nome num papel
Um novo rosto
Atrás do mesmo véu
Alguém me espera
E adivinha no céu
Que meu novo nome é
Um estranho que me quer
E eu quero tudo
No próximo hotel
Por mar, por terra
Ou via Embratel
Ela é um satélite
E só quer me amar
Mas não há promessas, não
É só um novo lugar.
Viver é bom
Nas curvas da estrada
Solidão, que nada
Viver é bom
Partida e chegada
Solidão, que nada
Solidão, que nada.
Alguém me espera
E adivinha no céu
Que meu novo nome é
Um estranho que me quer
E eu quero tudo (tudo)
No próximo hotel
Por mar, por terra
Ou via Embratel
Ela é um satélite
E só quer me amar
Mas não há promessas, não
(não há promessas)
É só um novo lugar.
Viver é bom
Nas curvas da estrada
Solidão, que nada
Viver é bom
Partida e chegada
Solidão, que nada
Solidão, que nada.
Viver é bom
Nas curvas da estrada
Solidão, que nada
Viver é bom
Partida e chegada
Solidão, que nada.♫
°°°
♪ “Solidão Que Nada”, é uma composição de: Agenor de Miranda Araújo Neto - Cazuza (4 de abril de 1958 - 7 de julho de 1990); George Alberto Heilborn Israel (16 de maio de 1960) e Nilo Romero Filho (1° de agosto de 1960).
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