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domingo, 9 de agosto de 2026

“Sabedoria de Pai”

Bem meus amigos e amigas do ®DOUG BLOG, este não será um texto triste, mas sim, de palavras carregadas da saudade que ainda lateja. Já faz alguns anos que vivo sem a presença de meus pais no meu dia a dia. Dizem que esta é a ordem natural das coisas, mas, eu gostaria que não fosse desta maneira.

E, sendo hoje Dia dos Pais (no Brasil), há momentos em que sinto um desejo avassalador de voltar ao “ontem” e ser feliz mais uma vez ao lado daquele grande homem e botafoguense, que foi meu pai.

Na vida, é sempre bom ter um bom conselheiro. Mas, um dia, começamos a perder nossas referências; o tempo voa, e a saudade vem para nos roubar nossa paz de espírito.
 
Ainda me lembro como se fosse ontem: meu pai, um homem refinado, um verdadeiro “gentleman”, usando uma bonita aliança de ouro de seus cinquenta e seis anos de casamento com minha mãe, Neuza; sempre sorridente, um homem culto e um matemático brilhante, de mente aguçada, mesmo já avançado em seus mais de noventa anos. Meu pai era, de fato, um homem feliz... e sabia como me fazer feliz também. Hoje, os casais tornam-se meros companheiros, sem alianças... sem afeto.

“Meu filho, todos um dia sentimos nossas dores e tristezas... Você precisa se preparar para o não estar!” Um dia, meu pai me disse esta frase; que na época, eu não compreendia o que aquele “não estar” significava. No entanto, sua ausência, que admito, ainda provoca uma dor aguda em meu peito, fez-me entender o sentido daquelas palavras: reconhecer a finitude da vida e a dor da perda, é um dos fardos mais difíceis da experiência humana.

No entanto, preparar-se para a ausência de um ente querido exige tempo, aceitação e, acima de tudo, acolher os próprios sentimentos, transformando a dor da despedida em memórias duradouras de afeto.

E o que você faz quando já não tem seu pai por perto para afastar seus medos? Fica um espasmo de saudade; dizem que a vida é boa, mas, após a morte do seu melhor amigo, ela pode parecer uma vida à toa, sem propósito. Na inocência da infância, quando eu ainda era tão jovem e não conhecia as malícias da vida, eu acreditava que jamais perderia meus pais. No entanto, hoje, já adulto, aprendi a conduzir a vida por conta própria; porém, todos os dias, sinto o vazio deixado pela ausência de meus pais. Sem eles, percebi que eu era como um fruto que amadureceu antes do tempo: um adulto ainda repleto de perguntas sem respostas.

O tempo passa e a vida boa e à toa... voa, mas, a saudade volta em minha direção por todas as partes. Minha maior tristeza, hoje, é saber que a vida não pode retroceder; ainda assim, tornei-me um contador de histórias, compartilhando relatos que aprendi, em grande parte, com esta própria saudade. Saudade da minha avó, da minha mãe e da mulher que amei, mas, acima de tudo, do meu pai. 
 
Quando minha mãe faleceu, trouxe meu pai para morar comigo. Nesta nova convivência, ele recontava suas histórias de vida, sempre com a mesma cadência e o mesmo ritmo, não para cansar meus ouvidos, mas, como um mantra para renovar suas memórias, garantindo que nenhuma delas escapasse de uma mente que inevitavelmente envelhecia junto com sua “casca”.

Assim sendo, por ter aprendido a ser um contador de histórias com o melhor contador de histórias que conheci, finalizo esta postagem do ®DOUG BLOG com esta narrativa da minha infância:

Eu sempre adorei maçãs verdes, aquelas que são mais ácidas e, este gosto está profundamente enraizado nas minhas memórias afetivas. Recordo com carinho a imagem do meu pai segurando um canivete em uma mão e uma maçã verde na outra, descascando a fruta sem romper a tira da casca. Eu sempre me impressionava com sua habilidade sutil; parecia algo tão simples para ele, mas, impossível de eu reproduzir. Minha mãe costumava dizer que era um desperdício de nutrientes, já que as vitaminas da maçã estão concentradas principalmente na casca. Mesmo assim, eu adorava vê-lo descascar cada maçã para eu comer, porque, o que eu realmente queria, era vê-lo realizar aquela arte... aquela “mágica” com a casca da fruta. Já adulto, tentei descascar maçãs verdes sem romper a tira... foi difícil aprender e, embora tenha conseguido algumas vezes, jamais alcancei o nível de maestria do meu pai. A verdade é que não sou mais criança e, muitas vezes, sinto-me perdido, sem saber a quem pedir para descascar uma maçã verde com perfeição. As “cascas das maçãs verdes da vida ainda continuam a existir, mas, agora as enfrento sem meu pai ao meu lado, em dias em que a própria vida, muitas vezes, parece ter um gosto ácido. Quanto às maçãs verdes de verdade, elas passaram a ter gosto de isopor, resultado do tanto de saudade que sinto de meu eterno contador de histórias.

FELIZ DIA DOS PAIS!

 
“Meu filho, todos um dia sentimos nossas dores e tristezas...
Você precisa se preparar para o não estar!” — Walter de Mello

“Naquela Mesa”
Interprete: Elizeth Cardoso

♫Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã.
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
(não doía assim)
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim.
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim

Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele está doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele está doendo em mim.♫
°°°
♪ “Naquela Mesa” (1968), composição de: Sérgio Freitas Bittencourt (3 de fevereiro de 1941 — 9 de julho de 1979), interpretada na voz da “Divina” - Elizeth Moreira Cardoso (16 de julho de 1920 - 7 de maio de 1990).

domingo, 2 de agosto de 2026

“Lugar de Homem é na Cozinha”

Meus amigos e amigas do ®DOUG BLOG, muitos homens sabem cozinhar por habilidade, enquanto outros se veem forçados pela necessidade a lidar com talheres e panelas. Alguns são profissionais (chefs), outros são supérstites.¹

A cozinha tem uma forma curiosa de revelar quem somos, geralmente dividindo os homens que cruzam seu portal em duas castas bem distintas: os que entram por vocação e os que entram por sobrevivência.

De um lado do balcão, temos o cozinheiro por habilidade profissional. Para ele, a cozinha não é um cômodo; é um templo, um palco, um laboratório de alquimia. Este homem planeja o cardápio da semana com esmero. Ele conhece a diferença entre um corte julienne e brunoise,² ostenta facas que cortam o vento e trata uma panela de ferro fundido com o zelo de quem cuida de um recém-nascido. Quando ele pilota o fogão, há uma coreografia: o avental é impecável, o vinho já está no decanter³ para ser servido nas taças corretas... e o molho reduz em fogo brando, enquanto ele discursa sobre a importância do tempo de cura do queijo Camembert. Cozinhar, para este homem, é um ato de sedução, de vaidade e de puro prazer. Ele quer os aplausos, os elogios sussurrados entre garfadas, a validação de que domina o fogo e os sabores diante de sua plateia: seus convidados para jantar.

E entre estes convidados, está espremido entre a pia e a geladeira, o cozinheiro por necessidade. Os caprichos da vida o empurraram para a beira do fogão... seja um divórcio, a mudança para estudar fora e ter de morar sozinho, a independência recém-adquirida ou simplesmente o custo proibitivo dos aplicativos de entrega (delivery). Ele não tem vontade de criar nada; quer apenas saciar sua fome com arroz, ovos, pão, linguiça e macarrão instantâneo. Ele não faz reduções de molho; em vez disso, compra sachês prontos, aquece-os e mistura tudo diretamente no “Miojo”. Os utensílios que utiliza são sobreviventes da época em que morava com os pais: uma frigideira com o revestimento antiaderente descascando (teflon), uma panela de pressão que exige ajuste da borracha de vedação antes de cada uso e uma colher de pau com um lascado na ponta. Para ele, a cebola não é picada ritmicamente com facas bem afiadas; ele destroça a cebola com uma “faquinha cega”, enquanto chora lágrimas de puro arrependimento por não ter comprado além do sachê de molho de tomate, também o tempero pronto. Seu maior triunfo não é arrancar elogios de uma plateia exigente (aliás, ele nem convida ninguém para comer sua gororoba), ele apenas pretende conseguir transformar duas salsichas, um resto de extrato de tomate, duas fatias de muçarela e um pão amanhecido, em algo digno de ser engolido sem que a azia o desperte às três da manhã.

O irônico é que, na intimidade do prato feito, a fome não faz distinção de classe culinária. O estômago ignora se o risoto levou quarenta minutos de caldo de legumes artesanal ou se o arroz com ovo foi o ápice do malabarismo de fim de mês. Como minha saudosa vó Lurdes sempre dizia com muita propriedade: “A fome é o melhor tempero!” - um famoso provérbio popular atribuído ao filósofo, político e advogado romano: Marco Túlio Cícero (3 de janeiro de 106 a.C. - 7 de dezembro de 43 a.C.).

A mágica da cozinha é que ela é um território mutável. Não raramente, o homem que começou queimando o alho por pura obrigação, com o tempo, pega o jeito da coisa. O primeiro feijão que dá certo traz um orgulho inesperado. O molho que engrossa no ponto certo desperta uma faísca. E assim, entre um erro e um acerto forçado, o cozinheiro da necessidade percebe que vai domesticando as panelas. Ele limpa o suor da testa, olha para o prato simples que acabou de criar e, pela primeira vez, sorri antes da primeira garfada... descobrindo, enfim, que a necessidade também sabe parir o talento.

O cerne da questão é, que eu aprendi a amar tanto comer quanto cozinhar, graças às minhas saudosas vó Lourdes e mãe Neuza, naturais de Minas Gerais, o estado brasileiro com a melhor culinária que conheço. 

Porém, embora as mulheres ainda administrem 96% das cozinhas domésticas no Mundo e constituam a base do preparo de alimentos das famílias, elas chefiam apenas 7% das cozinhas profissionais. A alta gastronomia tem sido historicamente dominada por homens, devido a estruturas de poder social, desigualdade de oportunidades e maior visibilidade na mídia. Historicamente, o preparo de banquetes nas cortes europeias e a literatura sobre a alta gastronomia eram domínios masculinos. E nas cozinhas profissionais modernas dos grandes chefs, esta disparidade (como mencionado), é ainda mais acentuada.
°°°

[NOTAS FINAIS ®DOUG BLOG]
¹
Supérstite significa sobrevivente. É um termo do latim (superstite). O termo é bastante usado no meio jurídico e burocrático (especialmente em inventários e partilhas).

² Na gastronomia, Julienne são tiras finas (cerca de 2 a 3 mm de espessura), enquanto Brunoise são cubos minúsculos derivados dessas tiras (cerca de 2 a 3 mm de lado). Embora sejam mais aplicados a vegetais, carnes também podem ser cortadas assim para recheios ou cozimento rápido.

³ Um decanter (ou decantador de vinho), é um recipiente de vidro ou cristal com base larga e gargalo estreito, utilizado para acomodar o vinho após a abertura da garrafa; ele permite que o líquido repouse, separando sedimentos e possibilitando a oxigenação, liberando os aromas do vinho antes de servi-lo.

⁴ O Camembert é um queijo francês de maturação superficial. Ele passa por um processo de “cura” promovido por fungos benéficos (Penicillium Camemberti), que formam sua casca branca aveludada e criam sua textura cremosa de dentro para fora.

⁵ Oficialmente, a palavra MUÇARELA deve ser escrita com “Ç”. Esta é a grafia registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. No entanto, no uso cotidiano, em cardápios e embalagens, a forma MUSSARELA (com “SS”), é a mais popular (coloquial) e amplamente aceita no comércio. Além disso, a forma MOZZARELLA (com “Z”), também está correta. Em outras palavras, a forma usada no dia a dia é a única que está incorreta.

 

 

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웃 O simpático cãozinho azul “Bidu” [1959] foi o 1° personagem de “Mauricio de Sousa” (27 de outubro de 1935); “Cebolinha e Cascão” surgiram um ano após [1960]; “Mônica” e seu coelhinho de pelúcia (inicialmente amarelo e depois azul), de nome: “Sansão”, tomaram conta da turminha em [1963]. A menina do vestido vermelho é inspirada em uma das 6 filhas do cartunista: “Mônica Spada e Sousa” (28 de setembro de 1960); já “Magali”, também inspirada em uma das filhas de “Mauricio”: “Magali Spada e Souza” (5 de outubro de 1961), foi criada em [1964].

Douglas Melo é um premiado jornalista - profissional diplomado em Comunicação Social, poliglota, Mestre/PhD - Philosophiæ Doctor, escritor, cronista e aforista brasileiro. É o idealizador do blog: ® DOUG BLOG + FRASES ® DOUG BLOG, onde é conhecido como: Doug.