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Meus amigos e amigas do ®DOUG BLOG, viajar de avião é ótimo e rápido... embora eu saiba que, se algo der errado com o voo, as oficinas de reparo estão todas aqui embaixo, em terra firme.
Mas, desenvolvi uma técnica para saber se a turbulência de um voo é perigosa quando acontece, eu observo os comissários de bordo e aeromoças, se eles permanecem calmos, está tudo bem. Agora, se todos começarem a caminhar em direção à cozinha de bordo (galley), é melhor começar a rezar.
Os comissários de bordo e aeromoças, são o termômetro das nossas emoções em momentos assim. Se eles continuam empurrando o carrinho de café e rindo de uma piada interna com um colega, você respira aliviado. Mas, se um deles apenas decidir se sentar no compartimento da tripulação, afivelando o cinto, cruzando os braços e exibindo aquela expressão de: “vamos ver como isso termina, embora eu preferisse não assistir”... bem, meu amigo, nesta hora até o sinal de Wi-Fi do avião se recusa a funcionar, porque, nem mesmo os algoritmos querem testemunhar o desfecho trágico que poderá acontecer.
Eu acho que a Igreja Católica deveria parar de formar padres e começar a formar pilotos de aviação civil. Um padre pode converter um ateu de vez em quando, mas, um piloto de um Boeing 777, por exemplo, quando ocorre uma falha na aeronave, converte de uma só vez 550 passageiros, seja de qual divisão de classes for (econômica, executiva ou primeira classe), porque, quando você acha que vai morrer, não existem ateus nem classes sociais.
Ou seja, durante um voo turbulento, ocorre um milagre de conversão em massa num piscar de olhos: o sujeito da poltrona 24C que defende fervorosamente a teoria da evolução humana, explicando a quem quiser ouvir que a ciência dita tudo e que Deus é uma ilusão cognitiva... no instante seguinte, o avião sacode, o compartimento de bagagem de mão se abre e malas começam a cair sobre a cabeça de todos; aí, o coitado regurgita no saco de vômito, fazendo promessas a um santo cuja existência ele sequer conhecia até aquele momento.
Se o manual de voo se baseasse na fé, as companhias aéreas substituiriam os manuais de segurança por um kit contendo um rosário, água benta e um curso intensivo de catecismo, tudo distribuído pelos comissários de bordo e aeromoças, juntamente com os amendoins e a água mineral. O aviso de “aperte os cintos” viria acompanhado de um guia de orações em dez idiomas diferentes, exibido nas telas dos encostos dos assentos.
O elemento de desespero e, o desejo ardente de saber o que está acontecendo diante de uma pane no avião, realmente destaca um aspecto notável e contraditório da situação, pois, vamos ser sinceros: ninguém a bordo quer realmente saber o que se passa na cabine de comando quando a situação aperta. O piloto acaba de ser promovido, num instante, a “Pontífice do voo”, afinal, nenhum Papa na história da humanidade jamais conseguiu pregar para uma plateia tão atenta, concentrada e, simultaneamente, silenciosa. A acústica da aeronave durante um “mergulho forçado” do avião é perfeita: não se ouve um pio, ninguém reclama da comida, ninguém se levanta para ir ao banheiro, ninguém pergunta se já pode usar o Smartphone ou não?... e todos finalmente prestam atenção às instruções de segurança, pois, são muitas vidas que estão em jogo.
Alguns começam a se lembrar de que romperam laços com os pais e morrerão sem pedir perdão a eles; outros se dão conta de que viajaram e se despediram dos filhos apenas por mensagens de voz no WhatsApp; e há ainda aqueles (os piores de todos), que acham que vão morrer e deixar tudo de bandeja para que seus herdeiros desfrutem.
Mas, onde está o ateu da poltrona 24C neste momento? Bem nesta hora, o sujeito está recostado na assento, sussurrando um latim desconexo para todas as divindades de todas as mitologias que a humanidade já conheceu, só para garantir seu plano de contingência cósmica. No fim das contas, a aviação civil deveria estampar nos bilhetes de passagem aérea instruções bem simples: “Em caso de despressurização, ajoelhe-se e comece a negociar os seus pecados”.
Façamos igual ao ateu, que passou o voo inteiro debatendo o criacionismo com um rabino e, agora está agarrado a ele recitando a Torá (Tanakh e Talmud), bem no momento em que o piloto soltou um suspiro de pavor audível pelo sistema de som da aeronave.
No fim das contas, aquele famoso aviso: “Atenção, senhores passageiros¹... por favor, retornem aos seus assentos e apertem os cintos”, feito pelo comandante com a voz mais calma que se possa imaginar, nunca é realmente tranquilizador. Em suma, a frase significa, na verdade: “Atenção, senhores passageiros... encontrei um atalho direto para o dia do juízo final, e vamos chegar com cinco minutos de antecedência”.
Pensando bem, talvez seja melhor que os pilotos mantenham o foco nos manches, nos manetes de potência e nos botões do painel de controle. Confiar a vida a um piloto com instintos divinos é ótimo, mas, poder garantir que ele realmente saiba pousar o avião na pista, só para dar uma mãozinha aos santos, é bem melhor.
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[NOTAS FINAIS ®DOUG BLOG]
¹ A expressão aeronáutica dita pelo comandante nos voos: “Atenção, senhores passageiros...”, é tradicionalmente dita no masculino devido a uma regra gramatical histórica da língua portuguesa conhecida como “masculino genérico”. Em português, o gênero masculino funciona como o gênero “neutro” ou não marcado. Isso significa que, ao se referir a um grupo misto (composto por homens e mulheres), ou a um público não especificado, a gramática determina o uso do masculino plural. Em suma, trata-se menos de uma questão de sexismo e mais de uma convenção gramatical defasada.
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