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Helena¹ acordou como todas as manhãs, com lambidas de seu cão Menelau¹... levantou, fez sua higiene matinal, depois se vestiu com as mesmas roupas básicas de sempre, após preparou seu café da manhã: um bowl de cereal com leite e rodelas de uma banana prata, uma xícara de café forte e bem doce, duas fatias de presunto com melão e dois pães de queijo (que sempre sobravam do dia anterior), que são aquecidos no micro-ondas.
Ela olhou para o relógio. Eram exatamente 7h. 14min., sabia, com precisão cirúrgica, que às 7h. 20min., estaria no elevador e, às 7h. 22min., estaria na portaria, lutando com o portão eletrônico do prédio; às 7h. 30min., estaria pontualmente encarando a nuca do mesmo motorista de ônibus que via há uma década.
A vida de Helena era tão rotineira que, para não correr o risco de esquecer nada, ela colava bilhetes adesivos amarelos (sticky notes), por onde quer que passasse; caso esquecesse algo, o algoritmo do banco de dados de sua mente conseguia calcular o que faltava, com base no consumo diário de água de sua garrafa térmica cor-de-rosa personalizada com seu nome, o tipo de coisa que só uma pessoa “pancada da cabeça” faria, como diria sua irmã gêmea (não idêntica), Clitemnestra.¹
Bem na hora de sair de casa, Helena deu uma última olhada no espelho e, de repente, disse:
💬 CHEGA! — enquanto tentava domar uma mecha de cabelo que insistia em cair sobre os olhos.
💬 Hoje, serei uma mulher nova. Uma mulher imprevisível. Uma mulher que quebra a rotina!
O primeiro passo rumo à liberdade começou no momento em que ela colocou os pés na rua. Em vez de pegar o ônibus, ela foi a pé e virou à direita na Rua Páris¹. Helena sentiu uma onda de adrenalina digna de filme de ação... ela era o próprio Tom Cruise² em “Missão Impossível”, só que de vestido floral e sapatilhas. Por outro lado, aquela sensação interna de empoderamento, podia ser apenas azia por causa dos pães de queijo amanhecidos.
Como todas as mulheres, Helena carregava um batom na bolsa, bem ao lado das chaves, do celular, do Ray-Ban e dos óculos de grau... além de mil outros pequenas coisinhas femininas essenciais.
Dois quarteirões adiante, Helena descobriu por que nunca havia virado à direita antes: o bairro estava em obras. Viu-se cercada por três caminhões betoneira e doze cones de trânsito. Um operário simpático (que estava terminando a calçada de concreto), avisou-a de que ela estava caminhando sobre cimento fresco.
💬 Este é o preço da aventura! - murmurou Helena, limpando um respingo de cimento do vestido.
Determinada a não deixar o universo vencer, Helena pôs o Plano B em prática: subiu a passarela de pedestres que levava à entrada do metrô, entrou, comprou um bilhete duplo (pois, precisaria voltar de sua aventura) e como já estava atrasada para o trabalho, decidiu seguir para o centro da cidade, um lugar que raramente visitava. Ligou para o chefe para avisar que só chegaria depois do almoço. Passou a manhã vagando pelas ruas do centro histórico e, na hora do almoço, naturalmente, por estar longe do trabalho, não foi ao restaurante self-service que costumava frequentar, onde os funcionários serviam e pesavam sua comida sem que ela precisasse sequer pegá-la ou pedir.
Helena entrou em um restaurante tailandês. O cardápio parecia escrito em uma linguagem que misturava poesia e ameaça. Ela pediu o prato marcado com três ícones vermelhos ao lado do nome, pois a “nova Helena” não temia perigo algum, ela era uma guerreira saída diretamente da mitologia grega. No entanto, logo na primeira garfada, descobriu o verdadeiro significado da palavra “inesperado”... lágrimas brotaram instantaneamente em seus olhos castanhos. Sentiu como se fumaça saísse de suas orelhas, tal qual um personagem de desenho animado. Virou uma jarra de suco de laranja em rápida sucessão, seguida pelo restante da água de sua elegante garrafinha estilosa pink, mas, percebeu que o incêndio interno se alastrava ainda mais. Um garçom prestativo (mas, com um sorriso sarcástico no canto da boca), lhe ofereceu um lenço de papel; ela sem perder a pose, aceitou, fingindo chorar de emoção com o sabor da comida apimentada.
De volta ao escritório, com a língua ainda dormente por causa das pimentas e suas sapatilhas levemente respingadas de cimento e cobertas de poeira, Helena sentou-se em sua cadeira habitual e contemplou a tela do computador, onde as planilhas do Excel, aquele programa “quarentão” que, assim como ela, ainda sobrevive e resiste ao tempo, a aguardavam. Curiosamente, as planilhas pareciam quase reconfortantes agora... um verdadeiro porto seguro em meio ao caos de tentar ser uma “Helena renovada”.
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[NOTAS FINAIS ®DOUG BLOG]
² Thomas Cruise Mapother IV - Tom Cruise (3 de julho de 1962), é um ator e produtor de cinema norte-americano.
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